Leia gratuitamente o início de Antes que a Vida Puxasse o Gatilho.
Quando eu saía do plantão pra fazer o bico, Bispão correu na minha direção.
— Guilhano, tem um restaurante ao lado da agência bancária. O almoço é por conta da firma. Pode comer à vontade, mas seja rápido. Hoje é dia de pagamento das empresas, vai ter muito movimento de clientes. Por isso, vai ser preciso ter muita atenção para que não tenhamos nenhuma surpresa. E a última recomendação foi clara: o posto não pode ficar desguarnecido por mais de trinta minutos.
O tempo para almoçar bastava. Para mim era mais do que eu esperava. Luxo. Bispão ainda conseguiu alguém pra me levar no centro da cidade. Dali, eu seguiria para o local onde faria mais seis horas de segurança privada. Não tinha carro nem habilitação. Naquele tempo vivia na base da correria e do aperto para saldar as contas. Assim sobrevivia a maioria dos carcereiros.
A carona apareceu com um advogado que foi conversar com Valdomiro, diretor da CSC. Logo se apresentou como sócio dele em uma rede de hotéis e turismo. Esperto, engomadinho, cabelo duro de gel, relógio de gente rica no pulso, terno impecável. Advogado com pose de doutor, mas com cara de bandido. Nem bem sentamos no carro, ele veio puxando conversa. Viu o rabecão parado na porta da unidade. Queria saber de qualquer forma o que tinha acontecido.
Respondi seco:
— Morreu um preso.
Ele tentou saber o nome. Falei que não sabia. Claro que sabia. Me fiz de idiota para não esticar a conversa. O plantão foi um inferno. Vinte e quatro horas ligado sob forte tensão na madrugada. Ter que dar entrevista acabaria comigo.
Já estávamos chegando perto do local do bico. Dessa vez perguntou como o ladrão morreu. Pensei: puta cara chato do caralho. Quer saber? Vou falar.
— Trezentos presos foram pra cima de apenas um. Espetaram o infeliz com facas artesanais, chuços. O corpo ficou irreconhecível de tanta perfuração. Enforcaram e, na parede próxima, escreveram com sangue: “Aqui morreu o maior malandrão de São Paulo.”
Ele arregalou os olhos e disse:
— Meu Deus. Quanta covardia. Rezo muito pelo Doutor Valdomiro para que nunca aconteça nada de pior com ele.
Pô, o almofadinha preocupado com o diretor que fica no ar-condicionado. Imagina eu, que fico vinte e quatro horas derretendo na beira da grade com aqueles demônios.
Chegamos no centro da cidade, na rua dos bancos. Desci e agradeci. Estava só o bagaço, com olheiras fundas de uma noite inteira sem pregar o olho. Me apresentei aos vigilantes, ao gerente, cumprimentei os funcionários e assumi o posto. Tudo certo.
Fiquei do lado de fora, na outra calçada, bem em frente, de onde conseguia observar a movimentação interna. O aviso do Bispão foi fácil de assimilar: “Dia de pagamento das empresas.” Então, ficar em alerta era obrigação.
A fome me devorava. Comuniquei aos guardas que ia almoçar. Pedi que redobrassem o cuidado. Entrei no restaurante indicado pelo chefe e fiz uma varredura rápida, conferi o churrasco, a feijoada, as saladas. Uma fartura. Comi muito.
Mas o compromisso na segurança me chamava. Nessa época muitas firmas pagavam funcionários em dinheiro vivo. Gente entrando, saindo, circulando sem parar. Data assim trazia muito perigo.
Antes de assumir novamente minha posição na vigilância, fui no banheiro da agência. A vontade era de sentar na tampa da privada, dentro de um box, e dormir quinze minutos. O corpo já não respondia direito. Mas responsabilidade pesa mais que cansaço. Lavei o rosto, mijei e voltei.
Eu estava indo em direção à saída, a mesma porta de entrada. Foi quando um Golf vermelho freou em frente ao banco. As quatro portas se abriram ao mesmo tempo. Três homens desceram armados, sem máscara, sem a menor preocupação em serem reconhecidos.
Dei de cara com eles. Olho no olho.
Não consegui sacar meu revólver calibre .38, de oito tiros. Nessa hora, um deles me viu e gritou, firme, em voz alta, com jeito de quem me conhecia:
— Perdeu, Guilhano!
Não fiz qualquer movimento, fui rendido e levado por um deles para o fundo, na área dos caixas.
Três ladrões ficaram dentro da agência, armados com duas submetralhadoras e uma pistola. O quarto ficou no carro, pronto para a fuga. Os vigilantes também foram dominados. O banco virou cenário de pânico em segundos. As pessoas congelaram. Os ladrões giravam apontando a arma para todos.
Os gritos continuavam:
— Deita! Deita! Deita!
O revólver foi encontrado na minha cintura. Qualquer gesto só serviria para tomar um tiro na cabeça. Eles começaram a arrancar as gavetas dos caixas na brutalidade. Dinheiro sendo jogado em mochilas. Clientes chorando. Eu fui deixado com a cara colada no chão, sem poder olhar e sentindo a presença da morte.
Quando terminaram, disseram que se alguém os reconhecesse ou dissesse algo pra polícia, iam atrás da pessoa.
A cabeça virou um caos. Só pensava na minha criança. Eu não podia morrer ali, deitado no chão, rastejando igual a uma lesma, deixando para trás a parte mais importante da minha vida.
Na saída, um dos ladrões encostou a submetralhadora no meu ouvido, se abaixou e falou baixo:
— Você nunca viu a gente, polícia.
O ladrão que não me conhecia perguntou:
— Esse que é o polícia? Mata esse arrombado.
Os dois que estavam próximos de mim responderam:
— Não.
Foi esse “não” que me separou da morte naquele dia. Depois, correram para fora, entraram no Golf vermelho e desapareceram. Levaram todo o dinheiro dos caixas sem dar um tiro.
Eu fiquei deitado no chão, sabendo que aquela história ainda estava longe de acabar.
A história está apenas começando.